documentário sobre João Cabral
café com conhaque
fotos da borra do café
vinho na Kibelândia
caminhada pelo centro gélido
trabalho no bar meio vazio
mais vinho
gargalhadas
risadas
internet
amigos
amores
ausências
solidão.
06 agosto 2010
05 agosto 2010
unzinho um vizinho
no novo quarto
caixas
muitas caixas
de papelão
fechadas
no velho
ainda não entregue
sujeira
muita sujeira
esperanças empoeiradas
aquela definitivamente
não era uma casa para amores
(o velho está enterrado
bem enterrado
debaixo daquelas pedrinhas)
olha que eu nem queria
amores fechados
lacrados...
hoje quero abrir logo
todas as caixas
arrumar tudo
limpar
passar
engomar
para esperar,
dona maricota à janela,
que alguém entre sem bater
pelo menos um
unzinho.
caixas
muitas caixas
de papelão
fechadas
no velho
ainda não entregue
sujeira
muita sujeira
esperanças empoeiradas
aquela definitivamente
não era uma casa para amores
(o velho está enterrado
bem enterrado
debaixo daquelas pedrinhas)
olha que eu nem queria
amores fechados
lacrados...
hoje quero abrir logo
todas as caixas
arrumar tudo
limpar
passar
engomar
para esperar,
dona maricota à janela,
que alguém entre sem bater
pelo menos um
unzinho.
11 julho 2010
Saltitando em três pulinhos
para A.
.....E então precisava de palavras escritas. As letras deveriam calar a balbúrdia dos números pontiagudos que lhe espetavam as veias frágeis, cheinhas de lágrimas. Escondida como uma criança que faz arte em meio à multidão, pegou de um papel e lhe contou um segredo em duas palavras. Dobrou em quatro e guardou no bolso do shortinho, cuidando para que ninguém o visse. Não acreditava muito em deus & cia, nem sabia se competia a São Longuinho, o Samunguinho de sua infância, mas como uma menina ainda pura, acreditou que ele daria um jeito. Se era o santo das coisas perdidas "samunguinho samunguinho se eu achar quem eu quero eu dou três pulinhos", ele encontraria o bilhete. E pronto. Continuou com seus afazeres de gente grande, somando, anotando, calculando, remoendo a certeza, que doía que nem joelho machucado, de que voltaria para casa solitária, arrastando chinelos imaginários, cortando o silêncio da madrugada com um ruído que ninguém ouviria.
.....Meia hora depois, media os passos nos ladrilhos vermelhos do terminal de ônibus, indo e voltando, de um lado a outro, indo e voltando, longe dali, ali mesmo. Olhava fixamente para o chão mas não estava cabisbaixa, estava autista. Era um autismo momentâneo, que só chega quando seu corpo respira tranquilo, até quase ressonar - por alguns minutos, sustenta-se a leveza do ser.
.....Voltou a si com o clack do disparador. Seu sorriso focava o all-star verde que estalava os dedos no alto do quadro. Eram os pés dele que voltavam do banheiro.
.....Meia hora antes, no banheiro do lugar onde fazia contas, ela rasgara o papelzinho, que agora não mais lhe servia. No fim do expediente, quando pegava a bolsa e a tristeza, que doía que nem joelho machucado, e calçava os chinelos por cima das sapatilhas de boneca, ele chegou.
.....- Eu sou seu colo.
.....E então, como criança, dormiu embalada pelo vai e vem do peito que São Longuinho lhe trouxera.
.....No dia seguinte, depois do almoço, ainda no restaurante lotado, rabiscou algumas cinco páginas do seu bloco de notas. E então, quando terminou, ao som de olhares curiosos, saiu saltitando em três pulinhos.
06 julho 2010
Imagens inodoras
Tenho teu corpo todinho
no meu computador
cada linha
cada cor
cada pelo.
mas de que me adianta
tê-lo com luz grafado
se não posso tocá-lo
se não posso cheirá-lo
como fazia outrora?
no meu computador
cada linha
cada cor
cada pelo.
mas de que me adianta
tê-lo com luz grafado
se não posso tocá-lo
se não posso cheirá-lo
como fazia outrora?
04 julho 2010
O poema e a poema
Às vezes o poema-menino vem
todo arrumadinho
como se fosse dia de pede cachimbo
– ou seria pé de cachimbo? –
Algumas das vezes
ele entra
e já se assenta
Outras
fica de cabeça baixa
e mãos para trás
esperando que eu o convide
para o jantar
Hoje
ele chegou faceiro
fez que ia se assentar
mas quando olhei de novo
já não estava.
(a menina-poema
muito sabida
só vem quando tem vinho.)
todo arrumadinho
como se fosse dia de pede cachimbo
– ou seria pé de cachimbo? –
Algumas das vezes
ele entra
e já se assenta
Outras
fica de cabeça baixa
e mãos para trás
esperando que eu o convide
para o jantar
Hoje
ele chegou faceiro
fez que ia se assentar
mas quando olhei de novo
já não estava.
(a menina-poema
muito sabida
só vem quando tem vinho.)
04 junho 2010
Indeterminação do sujeito
.....Começou com a cachorra chorando no portão. Isso acontece quando ela fica longo tempo sem ver gente querida, e somente três pessoas a fazem chorar: N, sua dona, Y e Cê, uma amiga da dona. Na verdade, começou com um telefonema.
.....– Alô, afim de dar uma volta?
.....– Caramba, você, nem reconheci. Sim, afim, mas preciso de meia hora.
.....Na verdade mesmo, começou com e-mails, que fizeram com que ela, a dona, pressentisse a visita inesperada no final de semana, como Y pressentira uma vez que ela estaria de esmalte preto para aquele encontro hoje já longínquo no tempo. Era sábado, 15h20. Ele chegou, ela escutou o estardalhaço da cachorra, desligou o feijão, que ficou por acabar, e foi abrir o cadeado. Um abraço tímido, apenas um roçar frouxo de corpos, se é que houve abraço. A euforia da cachorra expulsou as borboletas que os rodeavam e fez com que os quatro meses que passaram sem se ver se misturassem à trivialidade.
.....– Suada...
.....– É, estava num dia de faxina.
.....– Pensei em irmos pra praia.
.....– Ótimo. Está um dia lindo. Vou tomar uma ducha rapidinho; só um segundo.
.....No caminho, pararam num mirante, onde há um café. Lugar todo meigo. Mesas e bancos feitos com toras cruas, almofadas coloridas, chaleiras enferrujadas transformadas em vasos com flores secas, tudo debaixo de um arco de ferro coberto por trepadeiras. Na área interna, quadros naïfs pelas paredes e algumas pessoas com cara de leitoras de Veja. Olharam o cardápio. Uma garrafa de água mineral custava R$ 3,50. Um café expresso pequeno, R$ 3. Pediram dois. E conversaram. Simplesmente conversaram. E conversaram. Na praia, conversaram. O passado, condensado em quase três anos, e o futuro, que perduraria até a velhice, não mais interessavam. O que se vivia ali, naquele instante, bastava. Era tudo o que importava. A conversa, a reaproximação.
.....Depois da praia, expulsos pelo vento gelado do outono, voltaram para a casa dela. Mais café. Para comer, uma receita de pão de queijo que N aprendera com a avó nas últimas férias. Mais conversa, entremeada de silêncios confortáveis. Afinal, Y é uma daquelas pessoas cuja presença a deixa só consigo mesma.
.....Ao cair da noite, a separação. Um roçar frouxo de rostos. Em seguida, ao despontar da primeira estrela, a inquietação. Na casa dos pais, enquanto se arrumava para sair com um amigo, Y remoía indiferenças. N deixou-se ficar na frente do computador, pensando em 140 caracteres. “E aí você fica tremendo por dentro, sem saber o que fazer, o que pensar. Talvez porque não há o que fazer e o que pensar. Só o que há é o frio na barriga.” O frio na barriga. A sensação de tatear o escuro, de não ouvir nada.
.....Será que ela vai ao bar? Ele não a convidou. Apenas comentou algo quando o amigo telefonou para avisar aonde iriam e em que horas o apanharia. No entanto, o boteco acertado era como a segunda casa dela. Ainda com borboletas no estômago, ligou para Cê, também amiga de Y, que se ofereceu para ir junto. Pela internet, um amigo pouco-mais-que-amigo comentou “Eu, nessas ocasiões, acabei sempre indo. Me fodi em todas, mas se rolasse de novo, eu iria”. E, na sua cabeça, martelava um autor desconhecido:
“Mais vale a certeza do não
do que a dúvida do talvez
porque o não passa
e o talvez, talvez.”
.....Fingiu concordar por inteiro com os versinhos meio adolescentes. Tudo a empurrava para o mesmo bar. Checou o horário do próximo ônibus: 23h05. Às 23h40 tinha uma Heineken na mão e já cumprimentara a todos. Uma hora depois, Y se foi. Dessa vez, despediu-se dela com um abraço menos frouxo. Se ele nunca tivesse feito isso, ela ficaria surpresa e intrigada, mas, sabendo que bares e Y têm uma relação bastante dúbia e sabendo que ele havia ido para o apartamento de Cê, assistir a um filme com Bê, namorado da amiga, ficou tranquila.
.....Quando N e Cê chegaram, duas horas mais tarde, Y estava dormindo num colchão no chão. No mesmo quarto, na cama de casal, estava Bê. N tirou a calça jeans e o sutiã que a apertavam. Só de blusa, engatinhou por entre os lençóis e perguntou a Y se podia dormir ali. Resposta afirmativa. Os corpos começaram a se tocar receosamente.
.....– Você tem certeza que quer isso? – pergunta ele, sussurrando.
.....– ...
.....– Uma trepada sem compromissos no meio da noite?
.....– Sim, tenho. Uma trepada sem compromisso no meio da noite... – confirma ela baixinho.
.....E se beijaram como se nenhum dos dois tivesse feito aquilo antes. E, descomedidos, transaram. Não era preciso disfarçar, tamanha a intimidade entre os quatro que estavam ali no quarto. E, inversamente proporcional ao tempo que passaram sem se ver, gozaram.
.....Na manhã seguinte, durante um café com violão, nada havia acontecido. Nenhum resquício de passado, a não ser a música que ele compusera e da qual ela tanto gostava. Depois, na despedida em frente ao terminal de ônibus, um abraço e três palavras:
.....– Bom te ver.
.....E fim. Porque o que passou não mais importa, o que é, já foi, e o que virá, se vier, importará enquanto estiver sendo.
30 maio 2010
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