11 Novembro 2009

Vinte e um de outubro

.....Às vezes lembro que tenho uma rede e paro para pensar na vida. Não. Vida é muito grande; nem sei o que é a vida. Paro para pensar no que tenho vivido, nas pessoas que estão, no que tenho pensado e no que não.
.....Aquele dia em que eu parei no meio da calçada, como quem brinca de estátua sozinha, não sai da cabeça. Era um dia feio, como todos os outros dias feios, porque há meses, quem sabe ano, que aqui só tem dia feio. O sol, bebê-fujão, aparece tímido dia ou outro e logo se vai. Aquele dia prometia. Seria o terceiro de sol seguido. Seria de praia. Foi branco. No começo da tarde, eu voltava para casa caminhando, por uma rua que corria. De repente, dois palmos de céu estavam azuis. Estátua. Era como se assim eu congelasse aquilo tudo, aquilo que é tão grande, tão intenso, que encheria um livro grosso; que é tão curto, que dura a vida inteira. Aquilo é isso. Nada mais do que isto. Por alguns segundos ser abduzida, por se encantar com o sol, que tenta se mostrar numa época infindável de branco infindável. Eu não sei o que é felicidade, mas isto é felicidade. Embasbacada, parar para contemplar algo banal que te imobiliza lindamente e te suga para longe daqui.

.....Hoje o dia terminou tarde, horário de verão começou cedo. A primavera ainda não chegou por inteiro. Veio só metade dela, vieram o cheiro das flores e o cheiro das baratas. O céu sempre branco, sempre chuva, e as noites frias lhe roubam a outra metade.
.....Hoje o dia amanheceu tarde, como se fosse ontem, anteontem, tresontonte, branco. Fui dormir triste. Pelo almoço, acordei com o sol me fazendo cócegas. Pelo velho clichê, abre-se a janela e sorri, de olhos semi-cerrados. O suor do dia escorria e me fazia sorrir. Queria me teletransportar para a praia. Queria mais ainda te levar comigo. Te disse isso, que quase te convidei. O teletransporte se encarregaria dos muitos quilômetros. E logo lá estaríamos no calor da praia. Esta imagem, dos nossos corpos molhados, em pé, a secar, ficou tão forte que quase apagou a vontade que sustentamos de nos evitar, quase apagou a ausência que agora somos um para o outro. Por alguns momentos do dia, as imagens que se sucediam, sempre a mesma, nossos corpos molhados, em pé, a secar, nos fizeram tão próximos de novo que eu nem precisei ir à praia.

04 Novembro 2009

Da tristeza

de repente, a tristeza de poucas palavras
das costas curvadas
do choro contido
dos olhos caídos
do andar arrastado
do pensar mil coisas e não pensar em nada.

de repente, a tristeza da ausência de há muito.
a tristeza de se saber deixada
tristeza de não se sentir amada.

15 Outubro 2009

Todos os meses podem ser juninos

.....Numa dessas festas quase juninas, coisas estranhas e naturais acontecem. Trajes típicos os usam uns dez gatos-pingados e nem todos que vestem a camisa da organização estão caracterizados, ou descaracterizados, como queiram. Misturado à multidão, um cara de mini-saia rebola sua bunda, que o Word teima em não adicionar ao dicionário, e recebe cantadas ensaiadas e cumprimentos dos que talvez não o conheçam. Homem vestido de mulher, e não de mulher caipira, o ser parece ter vindo do carnaval, diretamente do Bloco dos Sujos. “Aqui quem tá falando é Lucas Silva e Silva, diretamente do Mundo da Lua”.
.....Ao som da Reboco, a banda, as pessoas conversam e bebem e conversam e bebem e atiram e atiram e atuam e ensaiam e atuam e sorriem um sorriso de fachada. Sim, sorriem um sorriso. Afinal, “a vida não é moranguinho com chantili e ponto".
.....Abre parágrafo, a frase da tia. Tem também aquela menina que não gostava de cerveja e, já que o quentão da festa quase junina acabara logo no início (talvez não acabara; nunca existiu – existira ficaria melhor)... A frase já está muito longa; há de ser bem simples, não simplória, para que os analfabetos funcionais compreendam e para que os outros analfabetos funcionais consigam escrever. Pois então, a menina que não gostava de bera, nem de breja, nem de cerva, passa a beber e a beber a loirinha gelada (e brega). Mais do que isso, consegue conseguir (!), todas as vezes que vai ao bar, duas latas apenas com uma ficha. Mais do que correto, já que na ficha lê-se um número dois (R$2,00 – sic mesmo, ha).
.....Mais do que isso (para usar uma anáfora capenga), a menina que agora bebe cerveja e que tem fama de mal-humorada e anti-social, atinge um estado alterado de percepção e se faz sociável. Muito. Abraça um, abraça outra, abraça uma, abraça outro. Ri e ri e gargalha da mosca invisível que peida (ou que flatula, para as moças que querem parecer polidas – lê-se maiaronetes) no ar. Liga para um outro e o convida para uma orgia imaginada. Faz questão de avisar um amigo que vai mijar, ops, fazer xixi, hacer pis. Ela, agora brejeira, até dança a tentativa de quadrilha que a banda intenta rebocar.
.....Ao fim da quadrilha caótica e linda, uma outra menina, que já bebe cerveja (dentre outros derivados do álcool) desde há muito, não encontra seu par amado, que não é chamado de namorado pela carga social hipócrita que a palavra carrega consigo. Não se mostra preocupada. Sim, mostra-se preocupada com um conhecido que acabara de encontrar e se põe a pensar numa forma de abordar (para usar de um eufemismo) o garoto tímido. Antes disso, ele foge encurralado pela timidez e se sente “tão bobo que um skate seria capaz de passar por cima de sua cabeça quando fosse atravessar a rua” de volta para casa.
.....Horas depois, a menina que já bebe cerveja esbarra em seu par amado, que lhe conta animado que foi convidado por um amontoado ado ado ado... Enfim, três amigas que se despediam do quase arraiá o chamaram para um esquenta pelado pós-festa na casa de uma delas. Ela que já bebe cerveja pergunta-lhe se precisa de camisinhas. Sim, ele só tinha uma. Afinal, amor livre também é isso. É quando se gosta da pessoa. Quando não há sentimento envolvido é muito fácil dizer-se adepto da poligamia.
.....Amor livre é amor livre.
.....Pinto. Desligo.

*junho 2007

05 Outubro 2009

Mãos de Portinari



As mãos fortes
da terra,
de Portinari

seguram
rude e delicadamente
a pequena direção
da brasília amarela.


*Foto e poema em fevereiro 2007
Assentamento União da Vitória, Fraiburgo (SC)

Presente tímido

Desculpa te invadir. Só quero te dar um poema.