26 novembro 2010

1409

um homem vai devagar
um carro vai depressa
bem depressa

um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze
doze listras brancas
sob o corpo vermelho que agora não vai.

2 ashamed

madrugada que começa
mais uma vez
me levanto
pra escrever um poema

enquanto você dorme
usando jeans.

20 novembro 2010

agujero

como um espírito de além-mar
você entrou no meu quarto sem me acordar
me beijou os olhos as bochechas a boca
me aspirou os minúsculos pelos da cara
me olhou nos olhos
segurou minha cabeça entre os dedos fortes
eu, dormindo, segurei a sua

éramos só mãos, cabeças e carícias
flutuando no labirinto difuso do meu cérebro

num segundo
te desfiz
e o vento te levou invisível
para o buraco no fundo do oceano

que tratei de tapar bem tapadinho.

ashamed

tava ali
dormido
com sua coxa
entre as minhas
com meu choro
que não vinha.

eu queria saber começar.

10 novembro 2010

20 outubro 2010

Chuveirinho que fala

crônica publicada ontem no Descomplicadas, da revista Naipe:
http://revistanaipe.com/blogs/chuveirinho-que-fala/

No outro dia

Foi ontem. A impressora chegou, dentro de uma mochila que trazia o cheiro dele. Ela, que não sentiu o cheiro, procurou por um bilhete que sabia não existir. Botou a mochila de lado, a cachorra estava no quarto, era evidente que sentia sua falta. A primeira coisa que fez foi cheirar a mochila. Cheirou, cheirou, cheirou, enquanto abanava o rabo. Abanava muito o rabo. Ela pensando "não faz isso comigo, Cacauazinha, vamos esquecer que é melhor, não há nada mais a fazer..." Mas a cachorra dizia não, não entendia o porquê. Por que, se era tão bonito, tão intenso? Voltava a cheirar e a abanar o rabo como se fosse um sinal de que ele não desaparecera. Como se naquele dia último dos últimos ele não tivesse lhe dado palmadas como se fossem as últimas, dizia isso no olhar, que só ela percebeu, a cachorra estava eufórica, aproveitando as carícias sem pensar a respeito. Mas ela percebia e já começava a maldizer essa sua percepção exacerbada. Há tempos, já no fim do tempo deles, que ela percebia sua ausência, "longe daqui, aqui mesmo", e não entendia nada, se perdia no silêncio dele. Como, se até então era uma troca de palavras tão gostosa? Por que o silêncio, o que fiz de errado além das coisas já esclarecidas?, pensava. E como uma criança assustada, chorava. Como uma criança, só conseguia a atenção dele quando fazia birra. Só assim para ser ouvida. Ela sabe que não foi de repente, mas tudo lhe apareceu de forma muito repentina, como se ele tivesse mudado a posição de um botão falar com ela, não falar, que ligava e desligava sem motivos aparentes. Ser cruel, não ser cruel. Carinho, aspereza. Depois do fim foi que ela se deu conta de que tudo vinha sendo programado, quis se afastar dela ainda com ela, para que lhe fosse mais fácil, e ela que se exploda, ele já não se importava mais. Botou na cabeça que queria esquecê-la e seguiu. Não pensou em diálogo, torturando-lhe da maneira que mais lhe doía, ele sabia disso, tirando-lhe o direito de saber o que se passava com quem ela gostava e, mais ainda, de saber algo que lhe tocava diretamente. Depois também ela percebeu que ele, a partir do momento que começou a brincar de apertar botões, não era mais ele. Ele já havia sido perdido há muito, ela só precisava perceber e viver o luto. E no luto que ela vive não vem só lembranças boas, vem a crueldade, a da fase de brincar de apertar botões e a de antes também, crueldades pontuais que lhe feriram muito. Os momentos bons, as risadas, as gargalhadas, as viagens, as fotos, as conversas, as caminhadas, os textos, os planos, a proximidade... O que fazer com tudo isso? São passarinhos girando ao redor da sua cabeça, passarinhos amarelinhos e barulhentos.


*escrito em 27/10/2009