30 outubro 2012

unidade de terapia intensiva


"No falta nadie en el jardín. No hay nadie:
sólo el invierno verde y negro, el día
desvelado como una aparición,
fantasma blanco, fría vestidura,
por las escalas de un castillo. [...]"
(Pablo Neruda)


Tudo apita.
Tudo dorme.
Tudo grita.
Tudo morre.
Tudo aspira.
Tudo esquece.
Tudo esquiva.
Tudo geme.
Tudo açoita.
Tudo corre.
Tudo amarga.
Tudo come.
Tudo espirra.
Tudo tosse.
Tudo esfria.
Tudo escorre.
Tudo cuida.
Tudo cospe.
Tudo murcha.
Tudo nasce.
Tudo espera.
Tudo urge.
Tudo assusta.
Tudo assiste.
Tudo chama.
Tudo veste.
Tudo acalma.
Tudo range.
Tudo arranha.
Tudo acode.
Tudo sara.
Tudo pede.
Tudo chega.

18 setembro 2012


a sombra estava ali
duas carrancas espaldadas
prontinhas para virem ao papel

um movimento da cadeira vizinha
sentada pela menina bonita
e as carrancas viraram nada.

asas.

(des)em-bolar

não era seda
era veludo
folha seca
na grama, na terra

bunda na terra
mãos distraídas

é tripa
marca-livro.




Quando o enterro passou

enquanto ele
falava de disciplina
militar, de correção,
de espírito guerreiro,
eu cultivava o meu
caos triturando
folhas secas,
algumas aveludadas,
ignorando a roda
absorta.

23 agosto 2012

and the dreams go to

tive um filho.

e histórias pra contar
músicas pra dançar
amigos de copo e vida

e felicidade de explodir 
o peito magro. 

02 julho 2012

papel de guardanapo

sábado de tarde
o mundo caminha sem pressa,
eu vagueante
peço caneta pelos bares do terminal,
papel de guardanapo,
para não esquecer estas linhas sujas
de sangue,
para manter o cheiro
de sexo a três,
o gosto.
para que o mundo continue
caminhando sem pressa,
menos pressa, mais amor.

06 junho 2012

tropelias

eu queria que mudar fosse um poema.

que as coisas se ajeitassem sozinhas
assim como palavras em verso.

que os versos fossem caixas
para onde as coisas fossem palavras.

ao invés de encaixotar, empalavrar
empilhar versos de
roupas livros sapatos colchão computador 
estante bicicleta patins vasos de flor

eu queria a mudança numa sentada
numa trepada.

caneta em cima de papel
letras em tropel
trôpego, por fim.

eu queria que mudar fosse um poema
de primeiro verso catarina
e último, alegria.