09 agosto 2013

belos horizontes

E foi depois de muitos voos que percebi que posso ser mais leve ou mais pesada que o ar. Só depende do quanto de ar boto dentro de mim, do quanto de ar deixo sair, naquele espaço de tempo em que olho os caminhos iluminados lá embaixo pelas luzinhas em multidão. 

Foi depois de muito tempo que percebi que posso ser ar.

06 agosto 2013

partidas

em meio ao velório do avô
abraçou distraída o amigo viajante
que partiria dali naquela tarde
(e depois para além-mar)
respirou fundo três vezes
(o abraço comprimindo-lhe o peito)
sentiu a quentura descendo pra calcinha.

fosse em outro lugar 

lhe botaria a mão na poça quente, mão sobre mão
sendo ali, colou os lábios aos dele
sugando o ar como se fosse fumaça amaconhada
esgueirou-se para o ouvido esquerdo e
no compasso da respiração vagarosa
sussurrou:

 preciso de você dentro de mim agora.

24 junho 2013

sapato do gigante

tentava botar fogo
numa folha seca
de coqueiro

veio um sapato social 
grande, lustroso

do gigante

que do alto da 
camisa branca engomada
empunhava um 
picolé. 

03 março 2013

terça-feira de Carnaval














chão de terra seca
dois dias sem chuva
vento que renuncia
(o papa também)
botas de bromélias espiadeiras

o povo dorme

(tu também)

água sobe pra caixa

redes estáticas
araras nos buritis
rapé e café sobre a mesa
sapos gritando hey hey ho
ho ho ho ho ho ho ho ho ho
uma goiaba cai do pé

lembro do teu

pé bonito, do teu
pau em mim.

21 fevereiro 2013

Sinta o cheiro do seu coração

.....Foi uma caminhada longa. Nasceu de pé, leve, esvoaçante, com um sorriso no rostinho cabeludo, cabeça achatada. Veio vindo a vida, foi-se indo a vida. A leveza se esvoaçava e se ia, carregada por passarinhos, a cada vez que a punham de quatro, que a faziam rastejar, a cada vez que, sem opção, porque era uma criança, segurava todas as caixas pesadas que lhe jogavam. A vida ia, e cada vez que ia lhe arrancava a unhadas sangue do peito pouco. Cada vez precisava se esforçar mais para se extasiar e se acalmar com as nuvens no céu, com a lua, com a formiga na terra, com a copa da árvore... A música quase não lhe existia. Era quase que proibido. Era proibida. Aos poucos, todas as partes do seu corpo foram sendo aprisionadas, até estar presa por inteiro, igual a um animal em cativeiro. Ela, dependente que a faziam, não mais podia se mexer, amarraram-na de tal forma que até respirar lhe custava. E acabou por aprender aprisionar-se também. Muitas vezes, pensou que morreria ali, pensou em se deixar morrer, nem se matar podia. Mas alguma coisa a manteve pulsando frouxamente. Sentia que crescia e que uma hora acabaria por estourar a jaula pequena. 
.....Foi uma longa caminhada. Primeiro, aprendeu a se mover dentro das grades, mesmo com as correntes lhe prendendo os quatro membros. Depois, aprendeu a mover aquele trambolho cinzento; treinava passos segurando nas mãos de livros. Até que pôde percorrer quilômetros. E fugiu aprisionada. 
.....Foi outra longa caminhada. Acostumada com a caixa de ferro, a vida veio voltando, de encontro a ela, em câmera lenta, lentíssima. Eram momentos fugidios, mas muito belos, que a faziam pulsar sempre um pouco mais. Mas ela nunca os podia aproveitar por inteiro, alguma coisa lhe apertava o peito pouco, sua respiração era ainda bastante restrita. Vez ou outra, topava com pessoas, às vezes livres, às vezes em jaulas já bastante carcomidas, às vezes em jaulas mais lustrosas ainda, que a ajudavam a desgastar um pouco as barras já sem brilho da sua prisão. Uma vira-latas, que cruzou seu caminho e ficou, começou a lhe ensinar muitas coisas, inclusive a amar novamente. Até que um dia, a menina enjaulada encontrou uma borboleta linda.
.....Foi outra caminhada longa. Foram quatro anos de conversa com a borboleta, a quem encontrava só com hora marcada, mas que estava sempre por perto de alguma maneira. Magicamente, ela foi fazendo com que a menina se livrasse das correntes e das grades e com que passasse a chorar também pela beleza das coisas, num transbordamento de amor e leveza. Foi fazendo com que a menina fizesse nascer suas próprias asas e assumisse a liberdade. Até que a menina-borboleta, após libertar tudo aquilo que ela sabia ser, voou para o mundo. 
.....Livre e feliz, passou a visitar lugares mágicos, a sentir a música em cada pedaço de pele e a encontrar outras pessoas-borboleta. Passou a espalhar e coletar borboletices e, de peito nu e aberto, a gritar, sussurrar e transpirar LIBERDADE.

.....De vez em quando, a menina perde a borboleta da palavra e se vê numa jaula de novo. Mas, conhecendo o caminho já trilhado, sabe que é só encher bem os pulmões e assoprar, que os ferros viram flor. 

03 fevereiro 2013

estou

soprei um suspiro doce
e de longe, muito longe
olhei pra ti.

veio o vento  
e me abraçou.

24 novembro 2012

eu já esqueci mais do que você um dia vai saber

para Tita, que fez a última estrofe, mote desse poema.

às vezes tenho vontade 
de dividir tudo em gavetas 
compartimentadas
prosa, poemas
músicas
imagens bonitas
disto, daquilo
paradas e em movimento
eu tento
coisas minhas e alheias
tudo num arquivo único
(catalogadinhas)
que de físico
se transmutasse 
em virtual
não envelhecesse
não juntasse pó
não se perdesse
não cessasse 

mas a vida é essa
bagunça sem fim
que borbulha
queima, arde, uiva
que é bonita assim

porque se tudo fosse
simples como estudar
na porta de casa
nada teria graça.