ouvido: band fm.
nariz: bicho morto na frigideira longe.
nariz: barata invisível arrodiando pés.
o bueiro da rua arrota.
dentro de mim,
teus olhos me cochichando carinho
teu cheiro me molhando,
me deixando de pau duro.
e as palavras são corpos,
e o tédio, daquele mais mais fundo, vira as costas.
30 novembro 2013
19 outubro 2013
Tanabi, tá na bosta
Arroz branco, brócolis, proteína de soja com tomate, refogado de berinjela. Na mão direita, uma faca. A faca no punho esquerdo. Riscos. O coração cansado desse mundo. O corpo caindo numa cama de espetos. A cabeça doendo. Cabeça pequena pra tantas dores no mundo. O estômago é um emaranhado de opressões engolidas, repressões, punições, padronizações, definições, binarismos de gênero. Um trem passando demoradamente sobre tudo isso, bem em frente àquela estação abandonada. Um ácido derretendo esse corpo todo. Fogueira a céu aberto fazendo cinzas das coisas-coisas que não cabem na mochila e aprisionam. O corpo queimando junto. Sim, eu luto, luto, luto, luto todos o dias, o tempo todo, Utopia & Paixão: A Política do Cotidiano. Mas é difícil olhar ao redor e ver uma cidade que repudia o prazer e a alegria, que celebra o sofrimento e o trabalho, maldita cruz sobre este mundo, uma família que me vê como propriedade, família, essa instituição capitalista. Não fosse a cachorra, eu já estaria vagueando por aí, bem longe daqui. Mas não fosse a cachorra, talvez eu nem existisse hoje.
09 agosto 2013
belos horizontes
E foi depois de muitos voos que percebi que posso ser mais leve ou mais pesada que o ar. Só depende do quanto de ar boto dentro de mim, do quanto de ar deixo sair, naquele espaço de tempo em que olho os caminhos iluminados lá embaixo pelas luzinhas em multidão.
Foi depois de muito tempo que percebi que posso ser ar.
Foi depois de muito tempo que percebi que posso ser ar.
06 agosto 2013
partidas
em meio ao velório do avô
abraçou distraída o amigo viajante
que partiria dali naquela tarde
fosse em outro lugar
lhe botaria a mão na poça quente, mão sobre mão
sendo ali, colou os lábios aos dele
abraçou distraída o amigo viajante
que partiria dali naquela tarde
(e depois para além-mar)
respirou fundo três vezes
(o abraço comprimindo-lhe o peito)
sentiu a quentura descendo pra calcinha.fosse em outro lugar
lhe botaria a mão na poça quente, mão sobre mão
sendo ali, colou os lábios aos dele
sugando o ar como se fosse fumaça amaconhada
esgueirou-se para o ouvido esquerdo e
no compasso da respiração vagarosa
sussurrou:
— preciso de você dentro de mim agora.
24 junho 2013
sapato do gigante
tentava botar fogo
numa folha seca
de coqueiro
veio um sapato social
grande, lustroso
do gigante
que do alto da
camisa branca engomada
empunhava um
picolé.
numa folha seca
de coqueiro
veio um sapato social
grande, lustroso
do gigante
que do alto da
camisa branca engomada
empunhava um
picolé.
03 março 2013
terça-feira de Carnaval
chão de terra seca
dois dias sem chuva
vento que renuncia
(o papa também)
botas de bromélias espiadeiras
o povo dorme
(tu também)
água sobe pra caixa
redes estáticas
araras nos buritis
rapé e café sobre a mesa
sapos gritando hey hey ho
ho ho ho ho ho ho ho ho ho
uma goiaba cai do pé
lembro do teu
pé bonito, do teu
pau em mim.
21 fevereiro 2013
Sinta o cheiro do seu coração
.....Foi uma caminhada longa. Nasceu de pé, leve, esvoaçante, com um sorriso no rostinho cabeludo, cabeça achatada. Veio vindo a vida, foi-se indo a vida. A leveza se esvoaçava e se ia, carregada por passarinhos, a cada vez que a punham de quatro, que a faziam rastejar, a cada vez que, sem opção, porque era uma criança, segurava todas as caixas pesadas que lhe jogavam. A vida ia, e cada vez que ia lhe arrancava a unhadas sangue do peito pouco. Cada vez precisava se esforçar mais para se extasiar e se acalmar com as nuvens no céu, com a lua, com a formiga na terra, com a copa da árvore... A música quase não lhe existia. Era quase que proibido. Era proibida. Aos poucos, todas as partes do seu corpo foram sendo aprisionadas, até estar presa por inteiro, igual a um animal em cativeiro. Ela, dependente que a faziam, não mais podia se mexer, amarraram-na de tal forma que até respirar lhe custava. E acabou por aprender aprisionar-se também. Muitas vezes, pensou que morreria ali, pensou em se deixar morrer, nem se matar podia. Mas alguma coisa a manteve pulsando frouxamente. Sentia que crescia e que uma hora acabaria por estourar a jaula pequena.
.....Foi uma longa caminhada. Primeiro, aprendeu a se mover dentro das grades, mesmo com as correntes lhe prendendo os quatro membros. Depois, aprendeu a mover aquele trambolho cinzento; treinava passos segurando nas mãos de livros. Até que pôde percorrer quilômetros. E fugiu aprisionada.
.....Foi outra longa caminhada. Acostumada com a caixa de ferro, a vida veio voltando, de encontro a ela, em câmera lenta, lentíssima. Eram momentos fugidios, mas muito belos, que a faziam pulsar sempre um pouco mais. Mas ela nunca os podia aproveitar por inteiro, alguma coisa lhe apertava o peito pouco, sua respiração era ainda bastante restrita. Vez ou outra, topava com pessoas, às vezes livres, às vezes em jaulas já bastante carcomidas, às vezes em jaulas mais lustrosas ainda, que a ajudavam a desgastar um pouco as barras já sem brilho da sua prisão. Uma vira-latas, que cruzou seu caminho e ficou, começou a lhe ensinar muitas coisas, inclusive a amar novamente. Até que um dia, a menina enjaulada encontrou uma borboleta linda.
.....Foi outra caminhada longa. Foram quatro anos de conversa com a borboleta, a quem encontrava só com hora marcada, mas que estava sempre por perto de alguma maneira. Magicamente, ela foi fazendo com que a menina se livrasse das correntes e das grades e com que passasse a chorar também pela beleza das coisas, num transbordamento de amor e leveza. Foi fazendo com que a menina fizesse nascer suas próprias asas e assumisse a liberdade. Até que a menina-borboleta, após libertar tudo aquilo que ela sabia ser, voou para o mundo.
.....Livre e feliz, passou a visitar lugares mágicos, a sentir a música em cada pedaço de pele e a encontrar outras pessoas-borboleta. Passou a espalhar e coletar borboletices e, de peito nu e aberto, a gritar, sussurrar e transpirar LIBERDADE.
.....De vez em quando, a menina perde a borboleta da palavra e se vê numa jaula de novo. Mas, conhecendo o caminho já trilhado, sabe que é só encher bem os pulmões e assoprar, que os ferros viram flor.
03 fevereiro 2013
24 novembro 2012
eu já esqueci mais do que você um dia vai saber
para Tita, que fez a última estrofe, mote desse poema.
às vezes tenho vontade
de dividir tudo em gavetas
compartimentadas
prosa, poemas
músicas
imagens bonitas
disto, daquilo
paradas e em movimento
eu tento
coisas minhas e alheias
tudo num arquivo único
(catalogadinhas)
que de físico
se transmutasse
em virtual
não envelhecesse
não juntasse pó
não se perdesse
não cessasse
mas a vida é essa
bagunça sem fim
que borbulha
queima, arde, uiva
que é bonita assim
porque se tudo fosse
simples como estudar
na porta de casa
nada teria graça.
22 novembro 2012
Da tristeza definitiva
não estou triste.
sou triste.
e não tem poesia
que me cure
por mais de um dia.
sou triste.
e não tem poesia
que me cure
por mais de um dia.
15 novembro 2012
06 novembro 2012
livros me ajudam a calar
na privada
remoía palavras
escritas
caldo espesso
desnecessário
ansiedade
descarga.
no espelho
remoía sorrisos
que ela
não riu na cama
e sempre ria
ralo, pia.
remoía palavras
escritas
caldo espesso
desnecessário
ansiedade
descarga.
no espelho
remoía sorrisos
que ela
não riu na cama
e sempre ria
ralo, pia.
30 outubro 2012
unidade de terapia intensiva
"No falta nadie en el jardín. No hay nadie:
sólo el invierno verde y negro, el día
desvelado como una aparición,
fantasma blanco, fría vestidura,
por las escalas de un castillo. [...]"
(Pablo Neruda)
Tudo apita.
Tudo dorme.
Tudo grita.
Tudo morre.
Tudo aspira.
Tudo esquece.
Tudo esquiva.
Tudo geme.
Tudo açoita.
Tudo corre.
Tudo amarga.
Tudo come.
Tudo espirra.
Tudo tosse.
Tudo esfria.
Tudo escorre.
Tudo cuida.
Tudo cospe.
Tudo murcha.
Tudo nasce.
Tudo espera.
Tudo urge.
Tudo assusta.
Tudo assiste.
Tudo chama.
Tudo veste.
Tudo acalma.
Tudo range.
Tudo arranha.
Tudo acode.
Tudo sara.
Tudo pede.
Tudo chega.
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