18 abril 2010

Caro Y,

.....Preciso te contar o que acabo de saber, algo impossível de guardar pra mim. A Dita esteve aqui e me disse que sua beleza lhe faz falta, pois fugiu levando um pedaço da dela. Da fuga, ficaram as fotos – que ela me mostrou emocionada –, belezas congeladas num passado recente, cores ainda bem vivas. Preciso te contar que aquele ego inflado daquela exibida que queria aparecer, que queria se mostrar, nua, toda sua, arrumada, descabelada, como fosse, todo aquele ego era pra você. Mas é uma exibida mesmo! Mas a Dita queria era te mostrar pra ela, queria mostrar pra si mesma e pra você o quanto ficava bonita ao seu lado. Queria, me disse, guardar esses momentos bonitos, em que ela sorria grande por dentro, e guardar os momentos mais bonitos ainda, aqueles em que você sorria grande pra ela, fazendo-a furar as bochechas da alma com um sorriso tamanho que mal lhe cabia na face delicada. Hoje ela vê que o medo que tinha de te perder fez, muitas vezes, com que esses momentos fotogênicos lhe escorressem pelos dedos, feito grãos de areia. No fim, acho que o medo que ela tinha de, de repente, ficar feia e só, esse medo maldito foi que espantou toda a beleza. E quando ela já quase perdia o medo, quando ela já quase acreditava que você não a deixaria de repente, a beleza, envelhecida, estava cansada de enfeitar as fotos com risadas gostosas e cores chamativas, e tudo foi ficando feio e triste. Você já não se importava e deletava do seu HD externo fotografias em que ela se exibia, toda nua, toda sua. Você já não a notava; a beleza arrumava as malas às escondidas. Ela tentava se enfeitar com os trapos que lhe restaram, mas ficava cada vez mais feia, sua imagem sumindo como a de um fantasma. As fotos já não mais existiam, sua câmera se negava a fotografá-la. Ela, confidenciou-me, arreganhava-se, gritava, implorava, queria entender o que acontecia, para poder consertar a máquina e te devolvê-la refeita, mas você não a permitiu, deixando-a tão irritada e desnorteada que ela acabou por arremessá-la contra a parede, assustando de vez o pouco de beleza que ainda resistia.
.....Hoje a Dita já recuperou um tantão dessa beleza fugitiva, foi juntando com a de outros, de outras. Está bonita novamente, organizando os arquivos aos poucos e apagando da memória as fotos inconvenientes, essas que a deixam feia. Mas o pedaço da beleza dela que se foi com a sua, se foi, e ela sabe que nada vai preenchê-lo, pois cada beleza é feita de partes únicas. Disso, ela tem saudades, disse-me com lágrimas nos olhos.

Um abraço,
da sua amiga N.

09 abril 2010

Caminhei quase dois quilômetros
por uma rua cheia de passantes apressados

mas lá só estava eu

e a música dos carros
que alfinetava meus olhos.

*maio 2008 (?)

23 março 2010

tinha vontade de algo
não sabia de quê

vi o vinho
e ficou sendo.

13 março 2010

holger holger holger

Que texto você escreveria quando acaba de ver o show de uma banda foda, muito foda? Você chega em (a, para os mais chatos, tipo a mina lésbica que você conheceu ontem) casa ainda de boca aberta, sim de boca aberta, porque qualquer coisa é mais difícil do que qualquer, hum, não me lembro mais o que ia dizer... mas sei que ia dizer, não exatamente aqui, que o show foi foda pra caralho (por que o Word marca em vermelho? Nunca viu um caralho, porra???). Teu estômago tá embrulhado pra caralho, mas você sabe o que quer dizer. Durante o show você estava, humm, quase sóbria (aqui o Word te corrige, você escreve sóbria sem acento...). Teu estômago está muito embrulhado, muito muito embrulhado, por que mesmo você ligou o computador? Será que já estava ligado? Sabe-se lá, sabe que você chegou e, depois de rir da cachorra aleatoriamente, começou a escrever, sabe-se lá por quê. Seu estômago está muito muito muito embrulhado, mas você continua escrevendo. Será que vai vomitar? Faz tempo que isso não acontece... Bem que o farmacêutico disse para esperar um pouco o efeito do álcool passar para depois tomar a pílula do dia seguinte. É, você usa anticoncepcional e é a favor do aborto, mas, se fuder, aborto, numa clínica boa, no início da gravidez, custa uns novecentos contos. É, sim, usa anticoncepcional, mas queria ficar sem por um tempo, e isso não funciona, aceite. Enfim, enfã, vocês compraram a pílula e ele comprou um ouro branco. É, é isso que te embrulha o estômago. Você para de escrever e tenta vomitar, mas não vai. Decide ir dormir. As letras na tela te fazem mais bêbada. A banda, porra, era a Holger. Quem não foi ou quem estava no puteiro e não viu é eternamente loosê.

09 março 2010

A chuva. Sempre a chuva.
Ela no quarto, onde tem passado a maior parte dos dias.
A cadela ali deitada a observa arrumar o guarda-roupa revirado.
Ela, a cadela, que chacoalha a cabeça como bibelô encapado de veludo.
O tapete fede a poeira e a cachorro.
O chão branco contorna os pelos acumulados, as meias, revistas, os fios.
O punho já lhe dói e a madrugada em frente ao computador está só começando.

Milhares de pensamentos e sentimentos inconsistentes vagueiam pela sua cabeça, passeiam por entre as roupas, confusos e cambaleantes.
Uma imagem, um pouco menos ébria, chega repentina e se apoia na parede.
Ali, emoldurado, ele dobra uma de suas camisetas daquele jeito único, que ela não sabe reproduzir.
Em foco, apenas as mãos de dedos esguios e a camiseta amarela.

*novembro 2009

01 março 2010

ler amar dar

dar não hoje.
ler três linhas quem sabe?
amar quem?

o que, armazém?
bom dia. eu te amo? eu também.

15 fevereiro 2010

em frente ao espelho
deformo minha cara com as mãos

caolha, chinesa, romena, indiana, suburbana
flor-nascente, down, cloaca, pé-de-serra

de repente
noutro espelho
uma trepada canina

eu de quatro
você detrás

no espelho
só a cara que a posição me faz.

*junho 2009

11 fevereiro 2010

têm de avoar

o vento passou forte
e fez com que eles
subissem
subissem
subissem

porque chega
uma hora em que
seus
avós
avoam