10 outubro 2010
09 outubro 2010
Escrevendo a tristeza
.....Às vezes me faço triste e fico regurgitando pensamentos reticentes. Meus ombros pesam e meu estômago faminto teima em rejeitar a comida. À mesa, penso em esquecer do mundo e viver comigo mesma, isolada numa pasárgada inabitada. Passar quanto tempo queira eu ao lado do meu monólogo interior, respondendo apenas à própria voz. Conversar apenas com um ser que não fala e que ignora a consciência e o conhecimento esnobe e ignorante. Ouvir só palavras silenciosas. Poder escrever desenhos esfumaçados nublados com a neblina que vem de dentro de um momento. Abrir a boca num bocejo bocejado. Saudar a preguiça espreguiçando um olá descompromissado que vagarosamente ecoa uma canção de ninar. Acordar quando estiver cansada de dormir e dormir quando o sono fechar os olhos. Olhar para o tempo com olhos de ressaca não dissimulada e soltar um grunhido debochado. Arrotar letras iletradas, soluçar bolhas estapafúrdias e calçar calçados apertados. Escutar o tic-tac-tic-tac-tic-tac do relógio, observar o vai-e-vem do pêndulo e não pensar nas horas que não existem. Depressivamente ser depressiva sem que isso deprecie. Ser uma escolha involuntária desobrigada de obstinação. Abster-se de abstinências. Tecer sensações emaranhadas em molduras de vento esvoaçante num chumaço de ar branco.
.....Cansar de rabiscar empurrando o cursor. Parar.
*escrito em 2007
02 outubro 2010
23 setembro 2010
21 setembro 2010
leve lá este bilhete
ele pergunta, ela responde:
– E o quindim? Como ficou?
– Gostoso, mas não mais que tu.
19 setembro 2010
rejeitas_rejeito
.....Depois de muito bater com a cabeça na parede, finalmente uma palavra aparece: rejeição. Tudo foi superado, a ausência, a saudade, a falta de carinho, a falta do cheiro, do dia-a-dia... o passado finalmente ocupou seu devido lugar na linha do tempo, o passado está no passado e não insiste mais em permanecer no presente; o passado passou. Depois de o ver, após muito tempo sem vê-lo, isso se confirma. Só o que não passa é o sentimento de rejeição. Aquela rejeição em específico está também no passado; não há mais o desejo de aceitação por parte daquele outro que te rejeitou há uns pares de meses. O que há é o temor da rejeição, o pânico, o descontrole, a carência que um não te causa, qualquer que seja ele, ínfimo, quase invisível, não importa o tamanho, você se sente a pessoa menos quista do mundo, sua ausência para o outro, enquanto você o queria presente, te assusta muito. E enquanto tudo se desenrola, enquanto o pânico está em ti e te faz agir de forma absolutamente estúpida, você tem plena consciência do ridículo da situação, mas não consegue parar. Pânico. Pane. Tudo te falta. Menos a consciência do absurdo. Aí, além da rejeição alheia, passa a existir a tua própria, tudo se agrava e nada te faz parar. O botão off se esconde. A cena que fica na TV é a de pedras gigantes rolando no asfalto. E no fim, quando elas se vão, quando não há outras a rolar, você se levanta debilitada, tentando conter o sangramento dos esfolados, que estão pelo corpo todo. E mesmo assim, toda machucada, ainda consegue pensar que isso um dia vai passar, que um dia vai conseguir desviar das pedras ou correr delas antes que apareçam. E aí não vai mais precisar deste texto de auto-ajuda.
17 setembro 2010
A marchinha da menina roliça
Era uma vez um menino que chamava a amiguinha de pancinha. Era um chamamento carinhoso, mas ele implicava de verdade com a barriga dela, até que um dia ela não aguentou e brigou com ele para sempre. Depois de muito tempo, a menina viu uma foto e, muito mal-criada, fez uma musiquinha para o menino bobo. Ficou assim:
maria barrigão,
barrigão, barrigão
um dia foi pancinha
agora é panção
agora é panção
o barrigão está na moda
o mundo inteiro viu
é talagaço
é partoba
fecha a boca, meu brasil
13 setembro 2010
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