15 outubro 2009

Todos os meses podem ser juninos

.....Numa dessas festas quase juninas, coisas estranhas e naturais acontecem. Trajes típicos os usam uns dez gatos-pingados e nem todos que vestem a camisa da organização estão caracterizados, ou descaracterizados, como queiram. Misturado à multidão, um cara de mini-saia rebola sua bunda, que o Word teima em não adicionar ao dicionário, e recebe cantadas ensaiadas e cumprimentos dos que talvez não o conheçam. Homem vestido de mulher, e não de mulher caipira, o ser parece ter vindo do carnaval, diretamente do Bloco dos Sujos. “Aqui quem tá falando é Lucas Silva e Silva, diretamente do Mundo da Lua”.
.....Ao som da Reboco, a banda, as pessoas conversam e bebem e conversam e bebem e atiram e atiram e atuam e ensaiam e atuam e sorriem um sorriso de fachada. Sim, sorriem um sorriso. Afinal, “a vida não é moranguinho com chantili e ponto".
.....Abre parágrafo, a frase da tia. Tem também aquela menina que não gostava de cerveja e, já que o quentão da festa quase junina acabara logo no início (talvez não acabara; nunca existiu – existira ficaria melhor)... A frase já está muito longa; há de ser bem simples, não simplória, para que os analfabetos funcionais compreendam e para que os outros analfabetos funcionais consigam escrever. Pois então, a menina que não gostava de bera, nem de breja, nem de cerva, passa a beber e a beber a loirinha gelada (e brega). Mais do que isso, consegue conseguir (!), todas as vezes que vai ao bar, duas latas apenas com uma ficha. Mais do que correto, já que na ficha lê-se um número dois (R$2,00 – sic mesmo, ha).
.....Mais do que isso (para usar uma anáfora capenga), a menina que agora bebe cerveja e que tem fama de mal-humorada e anti-social, atinge um estado alterado de percepção e se faz sociável. Muito. Abraça um, abraça outra, abraça uma, abraça outro. Ri e ri e gargalha da mosca invisível que peida (ou que flatula, para as moças que querem parecer polidas – lê-se maiaronetes) no ar. Liga para um outro e o convida para uma orgia imaginada. Faz questão de avisar um amigo que vai mijar, ops, fazer xixi, hacer pis. Ela, agora brejeira, até dança a tentativa de quadrilha que a banda intenta rebocar.
.....Ao fim da quadrilha caótica e linda, uma outra menina, que já bebe cerveja (dentre outros derivados do álcool) desde há muito, não encontra seu par amado, que não é chamado de namorado pela carga social hipócrita que a palavra carrega consigo. Não se mostra preocupada. Sim, mostra-se preocupada com um conhecido que acabara de encontrar e se põe a pensar numa forma de abordar (para usar de um eufemismo) o garoto tímido. Antes disso, ele foge encurralado pela timidez e se sente “tão bobo que um skate seria capaz de passar por cima de sua cabeça quando fosse atravessar a rua” de volta para casa.
.....Horas depois, a menina que já bebe cerveja esbarra em seu par amado, que lhe conta animado que foi convidado por um amontoado ado ado ado... Enfim, três amigas que se despediam do quase arraiá o chamaram para um esquenta pelado pós-festa na casa de uma delas. Ela que já bebe cerveja pergunta-lhe se precisa de camisinhas. Sim, ele só tinha uma. Afinal, amor livre também é isso. É quando se gosta da pessoa. Quando não há sentimento envolvido é muito fácil dizer-se adepto da poligamia.
.....Amor livre é amor livre.
.....Pinto. Desligo.

*junho 2007

05 outubro 2009

Mãos de Portinari



As mãos fortes
da terra,
de Portinari

seguram
rude e delicadamente
a pequena direção
da brasília amarela.


*Foto e poema em fevereiro 2007
Assentamento União da Vitória, Fraiburgo (SC)

Presente tímido

Desculpa te invadir. Só quero te dar um poema.

27 setembro 2009

vontade de dizer um poema:

"perto do fim
você disse que não se importava mais
não mais
você disse:
não me importo mais - com todas as palavras
e eu não respondi nada"

renan dissenha fagundes, no fluido fotográfico (7Letras, 2007) e no bebop tango (http://beboptango.blogspot.com)

26 setembro 2009

Tédio via @twitter

c.: tédio. dormi e acordei de tédio.

c.: tédio. dormi e acordei de tédio.

c.: tédio.

c.: chega de tédio.

c.: quero minhas caixas de som.

c.: tédio.

c.: tédio. tédio. tédio.

22 setembro 2009

Flores fedidas

....A TV ligada para movimentar a casa fala as mesmas coisas. A novela a que nunca assiste ocupou meia-hora do seu estado, do seu estado...
....A preguiça de tomar banho fica e o chulé exala. Numa noite, como todas as outras todas esboçadas por um esboço de vida, está sentada, só de calcinha, em frente ao computador tentando olhar para dentro de si. Percebe a fome, somente a fome e o olhar triste.

....Caminha por um corredor de pinheiros, cabisbaixa. Está sozinha. Sempre sozinha, mesmo que às vezes pensa ter espantado aquela solidão inconveniente, aquela que se sente quando se quer fugir de si e não há ninguém ao lado que a faça sentir como se estivesse só. Tem, mas não tem. Quase tem. Podia ter.
....Arrasta alguns passos e senta espremida num banco vazio. Sente-se pequena enquanto os pinheiros serenos balançam seus inúmeros braços curtos. Não vê escolhas escolhidas; apenas excessivas opções convergentes que sufocam. Fecha os olhos e vê as pessoas que passam sem saber para onde vão. De repente, baratas. E o cheiro forte e marrom que vem com elas.
....Lembra que tem uma maçã na bolsa. Observa. De olhos miúdos que não conseguem tornar-se arregalados, vê que as pessoas agora trazem uma grande maçã no lugar da cabeça. Chora. Enxuga as lágrimas com um sorriso contido. Pensa que pode dar mordidas nas bochechas de quem quiser. Ele. A maçã dele é lustrosa e a atrai, mas tem gosto ruim. Engole com dificuldade, sabendo que é possível cuspir. Mas tem medo de passar fome.
....O som de um miado a faz respirar fundo e apertar os olhos. Enxerga um gatinho magro, branco com manchas pretas. Sente-o roçar suas pernas. Assusta-se com o ar e corre leve. Ela o segue, chamando o bichano, tentando lhe arrancar confiança. Pis, pis, pis, pis, pis.
....Um amigo que tem uma risada que espera vai passando de bicicleta. O bichano corre ligeiro. Se vai. Sim, se vai. Ele para. Olha para os peitos dela, agora maiores, e lhe cumprimenta com um beijo gostoso na bochecha. Ela tem vontade de lhe falar. Você é aquilo que eu deixei ir. Dá-lhe um beijo no canto da boca. Conhaque. Umbigo. Tchau. Por trinta segundos, o mundo ficou inamovível.
....O gato. Cadê o gato? Pis, pis, pis, pis, pis. Onde se meteu? Vem, gatinho, vem. Ah, aí está. Morreu. Deve ter sido atropelado. Não sabe o que fazer. Olha. De pé, mira o sangue, aperta a alça da bolsa e morde o lábio superior. Morreu o bichano. Simples assim.
....Vem-lhe a imagem de uma cabeça de boi sangrando por entre os chifres, a língua pendurada. O sangue vai tingindo de vermelho o pelo branco branco. O machado repousa sujo ali ao lado. As moscas vão se achegando. Procura pelo corpo do boi. Não consegue saber onde está. Talvez esteja amarrado pelas patas traseiras, suspendido.
....Deixa o boi e o gato ali e continua caminhando. Não vai; anda. Passa por um açougue. Para. Olha. Escuta. Ploft, ploft, ploft. Os pedaços de carne vão sendo empilhados. Uma gota de sangue cai sobre a ponta de seu nariz e ali fica.
....Confere se o pingo secou. Vento sul está forte. Sequinho. Cervejas. Compra três no boteco fuleiro repleto de bukowskis que não escrevem. Sozinho numa mesa, bebe um homem de terno e gravata. O que faz ali?

....Seus pés inchados a levam de volta para casa. Gira a chave, acende as luzes. O silêncio sussurra tensos assovios. Tira a roupa, abre uma cerveja e liga a TV.

* outubro 2007, acho.

06 setembro 2009

Das broncas da vida

....Procuro na internet algo que mude a minha vida. Procuro ansiosamente sem procurar com afinco. Checo alucinadamente minhas caixas de e-mails e todos os outros pedaços virtuais de mim. É como se a cada momento pudesse aparecer algo que me tire dessa vida, que a revire por completo. Como se de repente fosse chegar por aí algum motivo que me faça querer viver. Ou talvez apenas algumas palavras que me distraiam da dor do dia-a-dia, que me façam esquecer da constante gritaria silenciosa que não me deixa ler. Que sosseguem a correria de pensamentos. Que me façam ter a sensação de pular de um trampolim, de maiô e touca. De cair na água e tocar o chão azul da piscina olímpica do clube em que cresci, aquele onde tinham os tangarás que eu nunca vi.

....Era lá no Clube dos Tangarás que minha avó que não conheci nadava suas piscinas matinais. Foi lá que ela venceu as competições que não sei. No clube do meu avô, o Dr. Newton, que morreu quando eu tinha 14. Foi lá que estreei o tobogã da piscina infantil, quando o Camilo, que se matou com 18, ainda era vivo.
....O meu tio Camilo, que era só cinco anos mais velho do que eu, que fazia aniversário no mesmo dia do meu, um dia me deu um beijo. No rosto. Como minha mãe tinha medo de ladrão, toda noite, dos seis aos dez, eu juntava minhas apostilas e meu uniforme do colégio e andava emburrada os cinco quarteirões que separava minha casa da do meu avô. Não gostava de ter que ir posar lá. Eu não tinha medo de ladrão! Às vezes jantávamos por lá aquela comida que a tia Heloísa, segunda mulher do meu avô e mãe do Camilo, preparava sem tempero por causa da diabete do doutor. Foi numa dessas noites, quando minha mãe me botava para dormir, que o Camilo me beijou. Eu fingia que dormia enquanto eles conversavam baixinho no quarto. O Camilo, então com uns 14 anos, pedia para minha mãe que o deixasse me dar um beijo de boa noite. Ela dizia que não pois eu ia acordar. Depois de um tempo, quando ela já havia descido as escadas encarpetadas do sobrado e assistia TV com o pai, eu desci chorando e o Camilo, que simplesmente queria me dar boa noite, levou uma bronca.

....Acho que muitas vezes eu me dou bronca por simplesmente querer dar boa noite.

* maio 2009

25 agosto 2009

Nove de agosto, estava escrito

Minha memória
é como se fossem
várias caixinhas de papelão
fechadas
com as abas entrelaçadas.

Quando preciso de algo
que nela guardei
tenho de abrir uma por uma

Quando encontro
se encontro
já é tarde.