25 agosto 2009

Nove de agosto, estava escrito

Minha memória
é como se fossem
várias caixinhas de papelão
fechadas
com as abas entrelaçadas.

Quando preciso de algo
que nela guardei
tenho de abrir uma por uma

Quando encontro
se encontro
já é tarde.

11 agosto 2009

Sinto como se

Na lanchonete da universidade
as vozes do entorno
sufocam meus pensamentos doentes.

Lá fora
o céu tá azul
e a brisa suave sacode os malabares
(agora proibidos)
enquanto eles, ao meu redor, falam animados
como pássaros depois da chuva.

Eu me escondo
me encolho aos poucos
tentando amenizar o peso dos meus ombros decaídos.

Sinto como se
eu existisse apenas para mim.

27 julho 2009

Da saudade

.....Às vezes me perguntam como posso não sentir saudade. Mas o fato é que eu sinto saudade. Sinto saudade daquilo que sei que não mais terei, daquela pessoa que não mais verei ou que só verei, quem sabe, por sorte do feliz acaso. Sinto saudade do passado e, às vezes, do futuro.

.....Quando tinha quinze anos e ia fazer uma viagem para o exterior, meu namoradinho de então me perguntou se sentiria saudades. Respondi que não; no máximo, sentiria sua falta (o que é diferente de sentir saudade). Seriam apenas quinze dias; se fosse para sentir saudades, nem daria tempo.

.....Saudades eu sinto da casa onde cresci. Era uma casa antiga, dessas de chão de tábuas, que estala quando a gente pisa. Dessas que têm um espaço oco por baixo, uma espécie de porão onde não se pode entrar. Por causa disso, não se podia pular nem correr nos quartos, pois se o fizesse, as coisas das estantes tremiam e podiam até cair.
.....Era uma casa grande, com oito cômodos espaçosos. Mas era como se só tivéssemos sete; um deles ficava trancado, pois o forro, que era de madeira na casa toda, havia despencado. Como era para ser um quarto de empregada e nós não tínhamos empregada (pelo menos que morasse em casa), ele ficou lá, abandonado, a abrigar coisas que não mais tinham utilidade.
.....Era também uma casa de goteiras. Nos dias de chuva, era um ploc-ploc-ploc. Mas ainda bem que os furinhos eram solidários e se alternavam nesses dias, de modo que não precisávamos de muitas panelas ao mesmo tempo.
.....O quintal da casa era enorme. Tinha até uma parte de terra, onde eu tinha plantado meu mamoeiro. Ele ficava num cantinho, meio desajustado, meio capenga, mas mesmo assim deu muito mamão. Foi esse quintal que abrigou meus incontáveis gatos, minha tartaruga, meu cachorro e as muitas festas que minha mãe e eu fazíamos.
.....A varanda da frente era elevada e protegida por uma grade que batia na cintura. Ali meu cachorrinho Muscchi enfiava a cabeça por entre os ferros e latia para as pessoas que passavam, pregando-lhes baita susto. Quando estávamos entediadas, era só sentar por ali e observar o movimento (quase que em câmera lenta) daquela cidadezinha ou esperar que algum conhecido parasse para conversar. Sempre passava por lá uma mulher que tinha problema mental e era conhecida por todos como Ana Banana. A Ana andava pela cidade toda a fechar os portões das casas. Era engraçado! Não faz muito, minha mãe me disse que ela morreu; ela, a Ana Banana de minha infância.
.....Não tínhamos vizinhos. De um lado, havia um centro espírita que mantinha um albergue noturno. Eram bêbados, andarilhos, casais que brigavam, famílias com crianças... um punhado de gente que ficava na calçada a esperar pelo hora de poder entrar. Vira e mexe, batiam palmas em casa para pedir comida, roupa, dinheiro para interar a passagem, para comprar remédios, para isso e para aquilo. Quando achava que devia, minha mãe os atendia prestativa e conversava um monte. Uma vez até abrigou uma mulher e os filhos em casa. Por isso, desde muito nova, aprendi a ouvir a história sofrida das pessoas. Do outro lado, havia um prédio comercial, onde, por algum tempo, funcionou o psicotécnico da minha tia. Era um barato! No quintal de casa, tinha uma janela que dava para uma parte do psicotécnico. Vivíamos fazendo dela um telefone-sem-fio...

.....Foram bons os tempos nessa casa da rua Marechal Deodoro, 314. Ali passei doze anos da minha vida, desde os cinco até dezessete. Ali, naquela casa antiga e acolhedora de uma pacata cidade do interior de São Paulo.
.....Dela eu sinto saudade. Ela que foi e já não é. Que hoje só existe no saudosismo de minhas lembranças. Aos dezessete, minha mãe e eu resolvemos nos mudar de cidade e a casa teve de ser vendida. Reformaram-na e a dividiram em duas. Deixaram-na parecida com uma prisão: colocaram grade nas janelas, subiram um muro na varanda, instalaram um interfone (onde nem a campainha funcionava) e fizeram uma garagem com portão eletrônico, onde nem havia uma garagem. Para isso, destruíram nosso jardinzinho de flores que surgiam e o pinheiro gigante que eu vira ainda pequenino no vaso que minha mãe ganhara de minha avó.

* agosto 2006

07 julho 2009

Tetinha

1.
No bar, enquanto com os amigos,
não,
não fez falta.
Faltou quando chegou em casa
e queria dormir
mas tinha a bunda gelada.
Faltou porque queria transar
e te tinha longe.


1.3
Por fim
ficou olhando para o poema
como se tivesse acabado uma foda.

Agora
de bunda quente
podia dormir.

02 julho 2009

múltiplos

numa madrugada de gritos e mugidos felinos
entremeados por latidos de cachorra

vê-se ali
atrapalhando a vizinhança
com seus gritos de orgasmos loucos

25 junho 2009

Uma crônica para Yazhulg

.....Uma xícara de café. Um prato à mesa. Escova de dente seca. Toalha de banho cheirando à poeira. Cama de solteiro espaçosa. Campainha enferrujada. Caixa de e-mails parada. Menos bônus para ligações recebidas pelo celular. Leitura na fila ritualística do restaurante universitário. Tabuleiro de damas aposentado. Uma das luminárias inutilizadas. Travesseiro para abraçar com as pernas. Chave do quarto esquecida. Gaveta cheia de camisinhas intocadas.
.....Eu ontem cozinhei para nós. Para mim e para a cachorra. Arroz, brócolis, cenoura cozida, filé de cação ao molho inventado e batata palha pronta.
.....Você está longe faz três dias. Faz falta. São só três longos dias. Dias preenchidos por atividades rotineiras incompletas.
.....A cadela, sem suas provocações estupefatas, está comportada e obediente. Pede licença para entrar no quarto. Só entra se for convidada. Ouve o não, dito ao tentar meter o focinho no frio da geladeira. Entende o sinal (ou o empurrão) de quando não é bem-vinda no colo. Abaixa a cabeça e se põe de barriga para cima quando vai receber carinho. As mordidas? São poucas. Morde só o ar quando quer comida ou atenção. Faz mais vezes cocô no jornal do que fora dele, ao lado.
.....Os afazeres chatos rendem: quase tudo em dia no projeto. As leituras engatinham. Agenda cheia de anotações para a semana: lançamento de revista, Tropa de elite e debate com diretor, 30 anos (sem) Clarice, Leituras de Benjamim, Discutindo o fazer literário...
.....A semana será boa, mas agora sinto sua falta. O choque do estar só. Não há ninguém para se dividir a mesmice dos dias. Ninguém para ouvir reclamações. Os amigos e as amigas se enfiaram nas exigências das obrigações. Não há ninguém próximo o bastante para suprir a sua ausência. Pessoas aleatórias começam a receber mais atenção. Trocam-se palavras com desconhecidos enquanto se passeia com a cachorra, trocam-se olhares com aquele cara do café, antes do supermercado, agora da biblioteca.
.....Os dias parecem bons, apesar de incompletos. Guardarei mentalmente relatos daquilo que queria ter dividido contigo, mesmo que só sirva para embrulhar peixe quando você chegar. Terei os ouvidos atentos às suas palavras que retornam de viagem. Abrirei a gaveta das camisinhas provavelmente ainda intocadas. Só que antes disso você terá seu pé todo molhado com o xixi da Cacaua.

* segundo semestre 2007

Caminhei quase dois quilômetros

Caminhei quase dois quilômetros
por uma rua cheia de passantes apressados

mas lá só estava eu

e a música dos carros
que alfinetava meus olhos.

01 junho 2009

All those things

entro no meu quarto
carregando o peso de um dia quente que termina.
o estômago tá vazio, a cabeça dói...
a cachorra me recebe cabisbaixa
mostrando o que sobrou de um jornal velho e do fio do telefone.
a cama ainda por fazer traz o cheiro da noite passada
do choro contido
da trepada inusitada e dormente
das poucas horas dormidas...

me atiro na poltrona vermelha de couro gasto
respiro fundo
penso num bom banho
só que o cansaço me amortece.

deixo-me então ali
tiro meu all-star
e o ar se torna inconfundível.

se eu fumasse, acenderia um cigarro.

* março de 2008