02 julho 2012

papel de guardanapo

sábado de tarde
o mundo caminha sem pressa,
eu vagueante
peço caneta pelos bares do terminal,
papel de guardanapo,
para não esquecer estas linhas sujas
de sangue,
para manter o cheiro
de sexo a três,
o gosto.
para que o mundo continue
caminhando sem pressa,
menos pressa, mais amor.

06 junho 2012

tropelias

eu queria que mudar fosse um poema.

que as coisas se ajeitassem sozinhas
assim como palavras em verso.

que os versos fossem caixas
para onde as coisas fossem palavras.

ao invés de encaixotar, empalavrar
empilhar versos de
roupas livros sapatos colchão computador 
estante bicicleta patins vasos de flor

eu queria a mudança numa sentada
numa trepada.

caneta em cima de papel
letras em tropel
trôpego, por fim.

eu queria que mudar fosse um poema
de primeiro verso catarina
e último, alegria. 

01 junho 2012

despreenchimentos

quando tudo 
é despedida e desassossego
e a casa
sendo desfeita
vai refazendo lembranças
e lágrimas

o silêncio, eu preencho com
palavras deixadas em papéis antigos

o vazio, com
comidas inventadas

tesão, com
masturbação

a dor, com 
o ar que, calculado, entra e sai dos pulmões

tristeza, com
Hypericum perforatum, a tal erva-de-são-joão

e para a solidão
eu tenho saudades.

29 abril 2012

sô qualqué coisa que sofro

pra ele que foi jeca. e continua, diz.
eu queria te escrevê
pra dizê que quero sê tua
toda tua.
e que meus verso te fosse atitude.
porque é.
palavras também é.

e queria escrevê bonito
mas eu tô ruim da cabeça.
mesmo ansim
eu vô prum samba
e queria te chamá.

eu queria que ocê me quisesse
preu podê te conhecê mió.

prometo lavá, passá e cozinhá.
e te fazê mais ri do que chorá.

19 abril 2012

Deixar ir

Uma injeção prontinha entrando na veia. Rápida e indolor. Ânimo para prepará-la, não existe. Quer o fácil. De difícil, já basta a vida. Morrer não pode ser também tão complicado. Quer o simples. Não a dor. Dor, já basta a de viver. Morrer, sem ofender ninguém. Quer aquilo que não fazem os que vivem. Ofendem. Abandonam. Cada um segue seu curso. Cada um cercado da própria solidão. Do próprio abandono. Da própria ofensa. Resignados em si. Assim se sobrevive. A tela do computador é o escudo. Estar ao lado mas ter um dia cheio é a escusa. Não é um, são vários. Morrer, morrer, morrer. Poupar os outros de um martírio inútil. Poupá-los de ouvir. De aporrinhações. De choramingos. Deixar-se ir. Calar-se à força, já que o desespero não cala, engatilha. Morrer gritando: abrace o morto, tanto quanto você não abraçou em vida.

Rejeitos

Tudo o que se quer é morrer. Mas não se morre, nem se mata.

16 abril 2012

Interlúdio/interdito

No sonho, eu tinha nas mãos uma caixa com alguns pertences – teclado de computador, umas peças de roupas e outros mais que não vi. Já tínhamos nos despedido, mas voltei para lhe devolver algo, que por engano estava na caixa. Enquanto lhe entregava, as lágrimas por debaixo dos meus óculos de sol azuis se intensificaram e você as notou. Perguntou se eu chorava, abaixando-se para ter certeza. Comovido, abraçou-me. Como não faziam havia muito, nossas bocas instintivamente se tocaram e ficaram, enquanto sua mão direita, que ostentava uma aliança prata, apertou de leve minha bunda. Por alguns segundos, a gravidade desapareceu, meu peito explodia sorrisos e você fazia desaparecer a pessoa que, de dentro do carro, carregava a outra aliança. Então, ela desceu vomitando, você foi acudi-la e eu, pelos portões de ferro do pombalzinho, rodeada de cachorros, voltei à minha vida medíocre.